Acupunctura na Dor Oncológica
A dor associada à doença oncológica é uma das complicações mais incapacitantes e temidas pelos doentes. Pode resultar da progressão tumoral, da metastização ou ainda dos próprios tratamentos, como cirurgia, quimioterapia ou radioterapia.
Estima-se que a dor esteja presente em cerca de 25% dos doentes no momento do diagnóstico, aumentando para 60% durante tratamento ativo e podendo ultrapassar 80% nos estádios avançados. Mesmo após tratamento concluído, uma parte significativa dos sobreviventes mantém dor crónica persistente.
Para além do sofrimento físico, a dor associa-se frequentemente a insónia, irritabilidade, ansiedade, depressão e isolamento social, com impacto profundo na qualidade de vida.
O que é a Acupunctura?
A acupunctura é uma técnica terapêutica originária da Medicina Tradicional Chinesa que consiste na inserção de agulhas estéreis descartáveis em pontos específicos do corpo, distribuídos ao longo de meridianos energéticos.
As agulhas podem ser estimuladas manualmente ou através de corrente elétrica (electroacupunctura).
Do ponto de vista fisiológico, estudos sugerem que a acupunctura:
- Estimula a libertação de opioides endógenos (?-endorfina, encefalinas, endomorfinas)
- Modula neurotransmissores envolvidos na transmissão da dor
- Atua em áreas cerebrais específicas associadas ao processamento nociceptivo
- Pode exercer efeito anti-inflamatório
Porque procurar alternativas aos analgésicos convencionais?
O controlo da dor oncológica recorre frequentemente a opioides. Embora eficazes, podem estar associados a:
- Obstipação
- Náuseas e vómitos
- Depressão respiratória
- Sonolência
- Desenvolvimento de tolerância
Além disso, a quimioterapia pode provocar neuropatia periférica, uma complicação dolorosa e frequentemente limitadora.
Neste contexto, abordagens complementares com perfil de segurança favorável têm sido objeto de crescente interesse científico.
Revisão Sistemática e Meta-Análise (2024)
Um estudo publicado em 2024 no Journal of Integrative Medicine avaliou a eficácia da acupunctura no controlo da dor oncológica.
Foram incluídos 16 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 1124 participantes, comparando acupunctura com:
- Ausência de tratamento
- Acupunctura simulada (sham)
- Cuidados habituais
A intensidade da dor foi medida através de escalas validadas como a Escala Visual Analógica (VAS), a Numeric Rating Scale (NRS) e o Brief Pain Inventory.
Resultados
A meta-análise demonstrou que a acupunctura foi significativamente mais eficaz na redução da dor quando comparada com:
- Ausência de tratamento
- Acupunctura simulada
- Cuidados habituais
Os resultados revelaram uma redução estatisticamente significativa da intensidade da dor, com magnitude de efeito moderada a elevada.

Foram ainda observadas melhorias em:
- Qualidade de vida
- Interferência da dor nas atividades diárias
- Funcionalidade
- Redução do consumo de analgésicos
Os efeitos adversos reportados foram mínimos ou inexistentes.
Mecanismo de Ação
A evidência atual sugere que a acupunctura:
- Modula vias centrais e periféricas da dor
- Estimula libertação de substâncias analgésicas endógenas
- Pode reduzir fenómenos inflamatórios
- Contribui para melhor regulação do sistema nervoso autónomo
Estudos de neuroimagem demonstram ativação de áreas cerebrais envolvidas no controlo da dor após estimulação por acupunctura.
Conclusão
A acupunctura poderá constituir uma intervenção complementar eficaz e segura na redução da dor associada ao cancro.
Não substitui os tratamentos convencionais quando estes são necessários, mas pode integrar uma abordagem multidisciplinar de controlo da dor, contribuindo para melhorar o conforto e a qualidade de vida do doente oncológico.
A decisão terapêutica deve ser individualizada e enquadrada por profissionais qualificados, integrando-se num plano clínico global.
Bibliografia
Faria, M., Teixeira, M., Maria João Pinto, & Paulo Sargento. (2024). Efficacy of acupuncture on cancer pain: A systematic review and meta-analysis. Journal of Integrative Medicine/Journal of Integrative Medicine, 22(3). https://doi.org/10.1016/j.joim.2024.03.002


